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coisa nenhuma

escrevo o constante contorno
de quando os passos perdem o som
e o sono avança nas pálpebras
pesadas

perenes
lembranças

a memória a herança
uma história, estrada
genética
gentil
me afaga como quando
um rio desaguasse
nos pêlos de ondas vagas
nas contas dum colar

e a saga continua
em nuances e matizes
e texturas e estragos:

gástricos refluxos
rios mares lagos
gosto salgado
de algas
de algum lugar

matas florestas que se entranham
nas arestas dum corpo
um pouco parco
mutilado
- guerras frias
e noites brancas

relevo: andante adorno
perdura e se instala
no timbre macio
no cheiro morno e vazio
da sala de estar
solto

esqueço o prato no forno
forneço-lhe lágrimas tortas
fechamos as portas e abrimos os braços
bradamos delitos
somamos espaços

permeia meus poros e veias
atiça faíscas em mim
rasbica traços com passos
e dedos
me arranha segredos
nas costas

o fruto do vosso ventre,
perdido entre aspas e nós
trepida como bandeira

apruma como leve pluma
ama, cura e cresce
simples e suave,

me amadurece.

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às vezes o coração que dorme levanta escala a garganta coas garra afiada e sai pela boca e eu não digo nada e me chamam de louca eu fico calada os calo na mão, a garganta inflamada, a má dicção, a fala embolada às vezes eu acho que fico engasgada com tanta emoção que encontro a troco de nada eu não sei se tô louca e se louca é ruim eu tô rouca de voz e tô fora de mim mas às vezes é certo sentir-se acuada que é tanto estilhaço que surge na estrada vou catando graveto com a mão e poeira com a sola do pé e um dia ainda dirão que o sujeito mais são é o louco que anda com fé

transa

estranhe-se não estrague-me a mão graveto de estrada de chão expurgue-se abuse-me então emane sertão engano ser vão ser til ser trema sermão apresse a prece, pagão o modo de produção a grosso modo: o osso morde o cão o quatro a roda a tração me prova (o trânsito na contramão) me prende (polícia come ladrão) metralha- me traia me transa com a mão me entrega um tu és que eu te dou um te são.

sem as mãos

Coração é que nem bicicleta. E ninguém entende minha bicicleta. Ela não desmonta, mas também n'aguenta: se a fizer de tonta, a bicha te arrebenta. O freio é todo gasto, e o pneu, careca - de saber dos rastros e pedaços que deixou pra trás. Tá desalinhada, pedalando dura, toda maltratada, com falha na pintura... O banco não senta, mas sente. O quadro não pinta, mas pende. Às vezes, se faz transparente, que fica difícil de achar, de repente. O guidão tá frouxo, tá sem direção. O bagageiro, gente, perdeu a noção do quanto de peso que já carregou. Das muitas caronas, de uma não esqueço: três anos de mágoa virada ao avesso. Foi aquilo que acabou com o pobre bagageiro. Desde então aprendi que até peso é passageiro. Conserto pra isso não se mede preço. Mas enfim. Ai, meu Deus... Eu mereço: é garfo arranhado, é pneu que é furado, é aro que empena... Coitada. Que pena: minha bicicleta já roubou a cena. Já se desmontou, quando era pequena. Desenferrujou, se recuperou; caiu, ...